Antes de decidir

O mercado de loteamentos no Brasil

O loteamento é o ponto de partida físico e simbólico de tudo o que conhecemos como cidades brasileiras. E é, ainda hoje, um dos maiores mercados de crédito do país fora do radar do sistema bancário.

Capítulo 1 de Loteando uma Gleba  ·  Cleo Groeninga de Almeida · Alexandre Sardinha

O passado: o loteamento como fundamento da urbanização

Antes de surgirem centros urbanos estruturados, bairros planejados ou regiões metropolitanas, o solo era apenas terra bruta — e sua divisão em lotes marcou o início da história do urbanismo e da ocupação humana organizada no Brasil. A prática de dividir o solo, à primeira vista simples, é o alicerce sobre o qual o mercado imobiliário se sustenta.

Durante o período colonial, as primeiras vilas se formavam de maneira espontânea, ao redor de igrejas, praças centrais, pelourinhos e feiras. As ruas surgiam por necessidade, abertas conforme o fluxo das pessoas e das atividades econômicas. No século XIX, com o ciclo do café, o parcelamento ganhou impulso: donos de terras nas regiões canavieiras e cafeeiras passaram a vender trechos de suas fazendas, sobretudo em pontos estratégicos — margens de caminhos comerciais, proximidades de feiras e o entorno das novas estações ferroviárias. O lote tornou-se a unidade básica de organização do espaço.

Esse crescimento era orgânico e guiado por interesse econômico, sem preocupação com abastecimento de água, saneamento ou planejamento de áreas públicas — o que produziu cidades desiguais e desordenadas.

A virada do século XX e a Companhia City

No início do século XX, a influência do urbanismo europeu, especialmente o modelo das cidades-jardim inglesas, chega ao Brasil. O caso da Companhia City, em São Paulo, é emblemático: fundada em 1912 com capital britânico, projetou bairros como Jardim América, Pacaembu, Alto de Pinheiros e parte do Jardim Europa, com traçados viários orgânicos, arborização planejada, recuos obrigatórios, controle de uso e ocupação por normas privadas e implantação de infraestrutura básica. Essas regiões seguem entre as mais valorizadas do mercado paulistano — prova concreta da longevidade de um projeto bem concebido e bem gerido.

Processo semelhante ocorreu em outras capitais: a Zona Sul e a Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, o bairro Cidade Jardim em Belo Horizonte e, em Porto Alegre, Curitiba, Recife e Goiânia, o loteamento privado precedeu o planejamento público.

O marco de 1979

A aprovação da Lei Federal nº 6.766/1979 trouxe grau relevante de organização ao setor, estabelecendo regras mínimas de aprovação, exigindo infraestrutura básica e reforçando a necessidade de registro do parcelamento em cartório. Mas, como a obra registra, mesmo antes da legislação o loteamento já era o principal instrumento de expansão urbana no país — ainda que com frequência informal. Ver parcelamento do solo e Lei 6.766.

O presente: um mercado em expansão horizontal

O Brasil urbano segue crescendo para os lados. A verticalização é expressiva apenas em regiões metropolitanas e capitais; no interior e nas franjas das grandes cidades, o sonho da casa própria continua ligado ao lote. Segundo estimativas citadas na obra, mais de 85% da população brasileira reside em casas — não apenas uma preferência cultural, mas um vetor concreto de desenvolvimento urbano.

O setor está presente em todas as regiões, de cidades com menos de 20 mil habitantes a metrópoles com milhões de moradores, e assume forma distinta em cada uma, adaptada à realidade econômica local, à legislação estadual e municipal, à topografia, à história fundiária e ao perfil da demanda.

Duas escalas que convivem

De um lado, houve profissionalização: grandes empresas, muitas com origem na incorporação vertical, passaram a operar loteamentos com acesso a capital, engenharia própria, escritórios especializados em projeto urbano, governança corporativa e capilaridade comercial — o que traz padronização, qualidade técnica e eficiência de execução.

De outro, a grande maioria dos loteamentos brasileiros é realizada por pequenos e médios empreendedores: milhares de loteadores locais que fazem um projeto por vez, muitas vezes famílias ou indivíduos com experiência prática e sem grande estrutura corporativa. São eles que respondem pela maioria dos projetos em cidades de pequeno e médio porte, frequentemente assumindo risco pessoal e comprometendo patrimônio próprio.

Tendências e desafios do presente

TendênciasDesafios
Expansão para áreas periféricas diante do custo da terra centralRisco de expansão desordenada, sem integração a transporte, saúde e educação
Demanda diversificada, do econômico ao alto padrãoCusto elevado de levar infraestrutura completa a áreas periféricas
Cidades médias como polos de crescimentoDesigualdade entre regiões e persistência de loteamentos informais
Loteamentos fechados e condomínios horizontaisConflitos entre preservação ambiental e maximização de lotes
Sustentabilidade e “loteamentos verdes”Planos diretores e legislações municipais desatualizados

O papel do loteador: Estado paralelo?

Em muitos municípios brasileiros, é o loteador quem cumpre, na prática, o papel do Estado. A ausência de infraestrutura pública adequada o obriga a assumir, via contrapartidas de licenciamento, responsabilidades que vão além do escopo do setor privado: negociar com concessionárias a extensão e a ligação da rede elétrica, construir sistemas de tratamento de esgoto onde não há rede coletora, expandir ou construir estações de tratamento e distribuição de água e, em alguns casos, implantar unidades escolares, creches e unidades básicas de saúde.

O gargalo do capital

Talvez o maior obstáculo atual do setor não seja técnico nem regulatório: é o acesso a capital. O loteador — especialmente o pequeno e o médio — não conta com linhas de crédito estruturadas, diferentemente dos projetos verticais nas grandes cidades, que operam com modelos consolidados de incorporação financiada. O comprador final também raramente encontra financiamento com prazos e taxas competitivas, acabando dependente das condições oferecidas diretamente pelo empreendedor.

A obra é direta sobre a causa: parte do problema está na incompreensão do setor financeiro sobre a natureza do mercado. Falta conhecimento básico sobre o ciclo de um loteamento, seus riscos e suas garantias, e a estrutura de colateral — terrenos com infraestrutura em implantação — é frequentemente mal interpretada por comitês de crédito sem critérios adequados para avaliar potencial de retorno ou liquidez.

Um dado de primeira mão

Segundo estimativa dos autores, o volume total de recebíveis ativos gerados pelo setor de loteamentos — considerando as vendas a prazo praticadas por loteadores em todo o país, muitas vezes autofinanciadas — alcança centenas de bilhões de reais, volume comparável ao das maiores carteiras de crédito imobiliário do país.

E esse volume não está em balanços bancários: está pulverizado nas carteiras de pequenos e médios loteadores espalhados pelo Brasil, que financiam seus próprios clientes e tomam integralmente o risco, com pouco ou nenhum apoio institucional.

Para os autores, viabilizar o futuro do setor exige criar mecanismos específicos de crédito, desenvolver modelos de garantia compatíveis com a dinâmica dos loteamentos e formar uma nova geração de analistas, gestores e investidores que compreendam o mercado em profundidade.

O futuro: urbanismo de impacto

A cidade do futuro não pode ser um amontoado de casas — precisa ser uma plataforma de convivência, trabalho, lazer, mobilidade e bem-estar. E o loteamento é a primeira peça desse quebra-cabeça. O capítulo recorre a três referências do pensamento urbanístico:

  • Kevin Lynch — em The Image of the City (1960) e A Theory of Good City Form (1981), estabeleceu os critérios de uma “boa cidade”: acessibilidade, mobilidade, vitalidade, diversidade, centralidade, equilíbrio, adequação e resiliência ambiental, com ênfase na legibilidade do espaço urbano.
  • Jan Gehl — em Life Between Buildings (1971) e Cities for People (2010), deslocou o foco do planejamento macro para a escala humana, defendendo cidades projetadas para pessoas e não para automóveis.
  • Carlos Moreno — com a “cidade de 15 minutos”, propôs reorganizar o tecido urbano para que trabalho, educação, lazer e saúde estejam acessíveis a pé ou de bicicleta em até 15 minutos de qualquer residência, introduzindo a dimensão do tempo e da descentralização.

O uso de tecnologia é tratado como decisivo: modelagem urbana em BIM, simulação hidrológica, sensoriamento remoto, cadastro urbano digital e integração com sistemas de gestão municipal — tudo já disponível, mas ainda por difundir em escala. Ver tecnologia em loteamentos.

Uma oportunidade histórica

Onde nasce um lote, pode nascer uma rua, um bairro, uma comunidade, uma nova centralidade urbana. O loteamento é, em última instância, a estrutura física da cidade futura.

O capítulo encerra com um argumento de posicionamento setorial: é preciso enxergar o loteamento pelo que ele é — um instrumento de organização territorial, e não apenas um produto de mercado. Isso exige mudança de mentalidade dos dois lados. O loteador não deveria ser visto como invasor da borda urbana, mas como parceiro do desenvolvimento; e o Estado precisaria sair da postura fiscalizatória reativa para assumir o papel de planejador, coordenador e incentivador de projetos urbanos de qualidade.

Capa de Loteando uma Gleba

Loteando uma Gleba

Os 23 capítulos percorrem todo o ciclo do parcelamento do solo urbano — da prospecção da gleba à comercialização dos lotes e suas estruturas de financiamento.